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sexta-feira, 28 de junho de 2013

Mobbing e Bullying em contexto laboral

O que são Mobbing e Bullying?

Mobbing e Bullying são termos comummente considerados como sendo sinónimos (Namie, 2003, citado por Sperry, 2009).
No entanto podem definir-se do seguinte modo:

Mobbing:
Forma de assédio não-sexual de um trabalhador por parte de um grupo de outros funcionários de uma mesma organização com o intuito de levar esse indivíduo-alvo a abandonar a organização ou departamento da mesma. Pode envolver indivíduos, grupos ou dinâmicas organizacionais, resultando na humilhação, descredibilização, desvalorização do indivíduo-alvo, com consequente perda de reputação profissional e afastamento do indivíduo da empresa seja por término de contrato por parte da empresa, por parte do indivíduo-alvo, ou por baixa médica. O Mobbing apresenta dois níveis de gravidade (moderado ou muito severo), sendo sempre uma experiência traumatizante que implica perdas significantes a nível profissional, financeiro, psicossociais, entre outras (Sperry, 2009).

Bullying:
Forma de comportamento abusivo e prejudicial dirigido a um alvo (ou alvos) ou vítima específico(s) por parte de um (único) elemento agressor. O Bully pode ser um colega ou supervisor. Embora os restantes membros da organização não estejam envolvidos, podem ser testemunhas das agressões. Agressões essas que apresentam carácter semelhante às
de uma situação de Mobbing. Ao contrário do Mobbing, o Bullying apresenta pouco ou nenhum envolvimento organizacional directo, afigurando-se como uma forma menos severa de abuso em contexto laboral (Sperry, 2009).



Formas de Mobbing/Bullying (exemplos) 
Rayner & Hoel (1997):
  • Ameaça ao estatuto profissional (exemplos)
    - Desprezar as opiniões
    - Humilhação profissional pública
    - Acusações infundadas (por exemplo, de falta de esforço, de não ser confiável, etc.)

  • Ameaça à integridade pessoal (exemplos)
    - Insultos
    - Intimidação
    - Desvalorização (por exemplo, em razão de idade)

  • Isolamento (exemplos)
    - Impedir o acesso a oportunidades
    - Isolamento físico ou social (impedir o contacto com outras pessoas dentro e fora da empresa)
    - Omissão de informação

  • Imposição de volume exagerado de trabalho (exemplos)
    - Pressão incomportável
    - Deadlines impossíveis de concretizar
    - Disrupções desnecessárias

  • Desestabilização (exemplos)
    - Falhar a atribuição do crédito devido
    - Atribuição de tarefas sem importância
    - Retirar responsabilidades

    - "Minar" a autoridade   
    - "Atirar em cara" erros passados repetidamente
    - Promover o insucesso de forma propositada



Características do Agressor

  • Brodsky (1976, citado por Rayner & Hoel, 1997): Os bullies buscam o poder ou privilégios de algum nível, sendo que algumas posições hierárquicas permitem facilmente que adoptem este tipo de comportamentos. Os bullies apresentam falta de competências de liderança.
  • Crawford (s/d, citado por Rayner & Hoel, 1997): O bully é alguém que falhou na aquisição de competências para resolução de conflitos de forma eficaz, durante a infância.
  • Einarssen, Raknes, & Matthiessen (1994, citados por Rayner & Hoel, 1997): O bully apresenta falhas ao nível das competências de liderança, como sendo conflituoso e tendo insuficiente controlo sobre o (seu) trabalho.
  • Ashforth (1994, citado por Rayner & Hoel, 1997): O bully apresenta falhas ao nível das competências de liderança.
  • Rayner (1997, citado por Rayner & Hoel, 1997): Os bullies são normalmente identificados como gestores ou gestores sénior dos seus alvos.
  • Judge, LePine, & Rich (2006, citados por Johnson, Silverman, Shyamsunder, Swee, Rodopman, Cho, & Bauer, 2010): Os funcionários com personalidades narcísicas vêem-se como tendo mais e melhores competências de liderança, tendo em melhor conta o seu trabalho e conduta, em comparação com as opiniões dos seus colegas, superiores e subalternos.
  • Edwards (1992, citado por Roscigno, Lopez, & Hodson, 2009); Jacoby (2004, citado por Roscigno, Lopez, & Hodson, 2009): A supervisão pessoal directa continua a ser uma estratégia de controlo interpessoal que deixa os gestores e supervisores com poucas ferramentas motivacionais além da ameaça e o abuso, promovendo o escalamento de ciclos de abuso, enquanto os supervisores/gestores se vão tornando déspotas tácticos.
  • Hegtvedt & Johnson (2000, citado por Roscigno, Lopez, & Hodson, 2009); Edwards, Collinson & Rees (1998, citado por Roscigno, Lopez, & Hodson, 2009): A desorganização constitui uma falha na gestão, impedindo o bom funcionamento da empresa.
  • Glendinning (2001, citado por Roscigno, Lopez, & Hodson, 2009): Na ausência de competência, coerência e organização eficaz, os gestores/supervisores limitam-se a recorrer ao bullying para se certificarem de que o trabalho é realizado.

Consequências para a Vítima

  • Sintomatologia somática
  • Sintomatologia associada ao Stress (Síndroma de Burnout, PTSD)
  • Sintomatologia depressiva, com aumento do risco de suicídio
  • Absentismo
  • Fadiga mental e cansaço físico
  • Alterações dos padrões alimentar e de sono
  • Anedonia 
  • Irritabilidade e tendências agressivas
  • Isolamento 
  • Tendência para a fuga
  • etc.

A Legislação Portuguesa

Código do Trabalho de Portugal
(Lei n.º 7/2009, de 12 de Fevereiro)

DIVISÃO II
Proibição de assédio
Artigo 29.º (Assédio)
1 — Entende-se por assédio o comportamento indesejado, nomeadamente o baseado em factor de discriminação, praticado aquando do acesso ao emprego ou no próprio emprego, trabalho ou formação profissional, com o objectivo ou o efeito de perturbar ou constranger a pessoa, afectar a sua dignidade, ou de lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador.
2 — Constitui assédio sexual o comportamento indesejado de carácter sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o objectivo ou o efeito referido no número anterior.
3 — À prática de assédio aplica-se o disposto no artigo anterior.
4 — Constitui contra-ordenação muito grave a violação do disposto neste artigo.



PROJECTO DE LEI N.º 252/VIII
Em discussão no Parlamento.


O que fazer?

Ana Teresa Verdasca, investigadora do SOCIUS (Centro de Investigação em Sociologia Económica da Universidade Técnica de Lisboa) e autora do site Assédio Moral no Local de Trabalho, recomenda num artigo seu que se tomem em consideração os seguintes aspectos: 


  • Verificar a existência de «uma política organizacional vocacionada para gerir situações de assédio moral»;
  • Procurar ajuda, solicitando apoio junto «dos Representantes de Saúde e Segurança Ocupacional, junto da Comissão de trabalhadores, Departamento de Recursos Humanos ou Representante Sindical.»;
  • Manter um «registo dos factos» (quando e onde ocorreu, o que foi dito e/ou feito, como se sentiu, eventuais testemunhas; registos dos factos, tais como emails, cartas, etc.);
  • Abordar o agressor (caso se sinta confortável e seguro o suficiente, aborde o agressor, informe-o de que o tipo de comportamento é desadequado, indesejado e inaceitável, e que não tolerará a sua repetição);
  • Recorrer a «serviços de aconselhamento», por exemplo, o Departamento de Pessoal, a Comissão de trabalhadores, Delegado Sindical ou o Representante de Saúde, Segurança e Higiene no Trabalho, o seu Médico de Famíliae, caso necessário, um Psicólogo;
  • Utilizar «procedimentos formais», apresentando formalmente queixa da situação;
  • Contactar o «Representante de Segurança e Saúde Ocupacional».
 
Referências Bibliográficas

Assembleia da República (2009). Lei n.º 7/2009, de 12 de Fevereiro, Retirada a 28 de Junho de2013 de http://dre.pt/pdf1sdip/2009/02/03000/0092601029.pdf
 

Johnson, R. E., Silverman, S. B., Shyamsunder, A., Swee, H.-Y., Rodopman, O. B., Cho, E., & Bauer, J. (2010). Acting Superior But Actually Inferior?: Correlates and Consequences of Workplace Arrogance. In Human Performance, 23, 403–427. 

Rayner, C. (1997). The Incidence of Workplace Bullying. In Journal of Community & Applied Social Psychology, 7 (3), 199–208.

Rayner, C., & Hoel, H. (1997). A Summary Review of Literature Relating to Workplace Bullying. In Journal of Community & Applied Social Psychology, 7 (3), 181–191.

Roscigno, V. J.; Lopez, S. H., & Hodson, R. H. (2009). Supervisory Bullying, Status Inequalities and Organizational Context. In Social Forces, 87(3), 1561–1589.

Sperry, L. (2009). Mobbing and Bullying: The Influence of Individual, Work Group, and Organizational Dynamics on Abusive Workplace Behavior. In Consulting Psychology Journal: Practice and Research, 61(3), 190–201.

Verdasca, A. T. (s/d). Como Agir?, Retirada a 28 de Junho de 2013 de http://www.assediomoralonline.com/userfiles/file/COMO%20AGIR.pdf

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Seguros de Saúde: Ordem dos Psicólogos Portugueses - AXA Portugal

Porque não é demais recordar...

Sabiam que a Ordem dos Psicólogos Portugueses e a AXA Portugal estabeleceram um Protocolo que visa a comparticipação de um Seguro de Saúde que inclui as consultas de Psicologia?



OPP assina protocolo com AXA Portugal

Seguro de saúde contempla consultas de psicologia

 
«A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) e a AXA Portugal, Companhia de Seguros S.A., estabeleceram através da SABSEG S.A. um protocolo que permite que os Clientes AXA passem a ter acesso a consultas de psicologia comparticipadas pelos seus seguros de saúde, desde que contratada a respectiva cobertura.


No âmbito deste protocolo, as pessoas seguradas podem usufruir de consultas de psicologia em pacotes de 12 ou 18 sessões, de acordo com as suas necessidades e sem obrigatoriedade de pré-aviso. Paralelamente, as pessoas seguradas não dependem de outro profissional de saúde para lhes prescrever a consulta, podendo, simplesmente, marcar a consulta directamente com um psicólogo devidamente inscrito na Ordem. De salientar que durante as próximas semanas a OPP irá fornecer mais informações em relação a esta cobertura que, refira-se, ficará disponível durante o mês de Abril de 2013.
Com a assinatura deste protocolo, a Ordem dos Psicólogos Portugueses e a AXA Portugal pretendem contribuir para o bem-estar dos utentes, os quais passam a usufruir de um âmbito mais alargado de cobertura, incluindo agora as consultas de Psicologia.»

PSP: «Concerto de Palmo e Meio»

Gostamos desta iniciativa!

PSP

Concerto de Palmo e Meio

PSP organiza mais um concerto para bebés e crianças nas instalações da Direção Nacional.

No próximo sábado, 29 de Junho, às11h00, a Polícia de Segurança Pública (PSP) realiza na Direção Nacional da PSP mais um Concerto de Palmo e Meio, que tantos bons momentos tem proporcionado a miúdos e graúdos nos últimos meses.

Porque o verão chegou e as temperaturas convidam a ambientes mais frescos, este concerto ocorrerá no Salão Nobre da Direção Nacional pois é tempo celebrar a alegria, a boa disposição e as melodias para as crianças com a «temperatura certa». No entanto, os claustros estarão abertos para que os que pretendam brindar ao sol o possam fazer em pleno.

O concerto contará com algumas surpresas dirigidas à pequenada: o concerto da Banda Sinfónica da PSP, a presença do Falco (a mascote oficial da PSP) e um lanche com o apoio da Sumol/Compal (Um Bongo) e da Padaria Portuguesa.

A entrada é gratuita, mas os lugares são limitados a 50 crianças para que possam ser garantidas condições ótimas para desfrutar deste momento único.

Informações úteis
Data e hora: 29 de junho de 2013, das 11h00 às 11h45. A chegada deverá ser feita por volta 10h30.
O Concerto de Palmo e Meio é gratuito, mas requer inscrição prévia.
Envie um e-mail para protocolo@psp.pt com o assunto Concerto para bebés ou telefone para o número 218 111 087.
É necessário indicar a idade da(s) criança(s) e informar quem são os adultos que a(s) acompanharão.
A PSP disponibiliza alguns lugares de estacionamento.

Local
Direção Nacional da PSP
Largo da Penha de França, nº 1
1170 – 298 Lisboa

Actividades de Verão com a Bússola D'Ideias e a Academia Virtual das Letras

Já se inscreveu nas actividades de Verão da Bússola D'Ideias?

Ainda há algumas vagas! Aproveite! Ainda vai a tempo!


quarta-feira, 26 de junho de 2013

Compreender o Preconceito

Deixo-vos uma página com um vídeo acerca de uma experiência interessantíssima sobre o preconceito.

Aqui vai o link.

Deixem os vossos comentários sob a forma de mensagem ou, caso prefiram, enviem-nos para nube@bussoladideias.pt.

BÚSSOLA D'IDEIAS: Atividades de Verão - Escrita Criativa

Estimular o gosto pela leitura e escrita junto dos jovens é o que a Bússola D' Ideias, em parceria com a Academia Virtual das Letras, se comprometem a transmitir neste Verão.

O programa completo tem a duração de duas semanas, para jovens entre os 8 anos e os 17 anos


Inscrições abertas.

PÚBLICO: «Adolescer em tempo de crise»

Para reflectir.



Descrevemos como susto a idade adulta não dando, aos adolescentes e aos adultos em geral, a ideia de que é ao ser adulto que se tem a maior liberdade, a maior capacidade de decisão e quando se é verdadeiramente mais senhor do próprio destino e do seu percurso de vida. 

A lavagem do carro 
Imaginem que levam o vosso carro à máquina de lavagem automática. Dirigem-se a uma gasolineira, conduzindo-o, e seguem as instruções da pessoa que lá está. Ele vai dizendo: "mais à direita, mais à esquerda, assim… pode parar!". A partir daí, a máquina pegará no automóvel e, por mais que o leitor faça, não conseguirá mudar o rumo das coisas, designadamente do seu automóvel. O que for, será.

A grelha da máquina «agarrará» nas rodas do carro e levá-lo-á por aí, em direção a umas ameaçadoras escovas e a jactos de água, que despejarão detergente e espuma (o leitor deixará de ver o que se passa), depois mais água e, finalmente, uma outra máquina ameaçadora, que vem em direção ao seu vidro e – confesse, leitor! – pensará sempre que aquela barra que despeja jactos de ar quente não perceberá que tem um vidro, um carro e o leitor à frente e fará uma razia em linha recta, decapitando-o.

No final deste filme, o leitor ficará satisfeito com o trabalho, o seu carro está limpo e brilha, sobretudo se tiver pedido o programa mais caro mas mais completo, e segue então viagem, novamente com poder sobre o volante e sobre o rumo do seu destino.

A adolescência é assim. Tão fácil? Ou tão difícil? 

O que é um adulto? 
Ou, melhor, escrevendo o que dizemos nós adultos, aos adolescentes sobre o que é ser adulto. Pegue-se num telejornal, num jornal ou numa revista: tirando algumas excepções (bastantes, mas não as suficientes), os adultos são descritos como assassinos, pedófilos, corruptos, mentirosos, gente de objectivos rasteiros, gente que aparece porque está "in" e está "in" porque aparece o inefável jet set, grandes traficantes, maus políticos, exploradores e outros que tais. Ou, então, as vítimas desses mesmos adultos. Nós próprios ao falarmos de nós queixamo-nos permanentemente do trabalho, do cansaço, do IRS, do fisco, do Governo, da malandragem, da troika e dos ladrões e… de tudo. Ser adulto é, pois, uma questão simples. Ser adulto equivale, assim, a uma de duas coisas: ser malandro ou ser vítima de malandro.

O discurso sobre a adultícia ainda é pior, quando acrescentamos a Rádio Nostalgia: a criança que há em nós, a liberdade da infância, os bons velhos tempos em que éramos jovens e não tínhamos responsabilidades.

No entanto, a cereja no topo do bolo é quando dizemos – talvez com razão, mas com alguns efeitos secundários indesejáveis – que os erros do passado e detectados no presente vão ser pagos (e de que maneira!) pelas gerações seguintes. Não discuto se é verdade ou mentira que cada português, ao nascer, já está a dever balúrdios a toda a gente, seja aos mercados, seja à senhora Merkel. Que sei eu! Mas para quem está na adolescência, a ver-se, qual automóvel em máquina automática de lavar, engatilhado nas roldanas sem poder acelerar, travar, virar à esquerda ou à direita e quando lhe dizem que as escovas que vêm aí são terríveis, a dúvida é o que vai sair do outro lado. Um carro limpo e brilhante, ou uma amálgama de ferros torcidos e a pintura riscada de modo indelével?

Teremos, assim, de mudar o discurso sobre a adultícia, mais do que repetir os chavões do costume sobre a adolescência – período descrito por muitos pais como "terrível", cheio de problemas e um susto. O que descrevemos, sem dar por isso, talvez, como susto é a idade adulta, não dando aos adolescentes e aos adultos em geral a ideia de que é, ao ser adulto, que se tem a maior liberdade, a maior capacidade de decisão e quando se é verdadeiramente senhor do próprio destino e do  percurso de vida. 

Ser adolescente em tempo de crise 
O nosso país está em crise, o mundo está em crise. Que grande novidade… Não sabemos o que o futuro nos reserva, os tempos estão e serão difíceis. Que grande novidade… Os jovens nem sabem o que os espera! (e alguém sabe?).

Curiosamente, o facto de as sociedades terem vivido períodos enormes de crise, da palavra crise significar "crescimento e oportunidade", de esta crise se dar (no nosso país) em níveis de desenvolvimento nunca antes atingidos e de as gerações anteriores terem, elas mesmas, passado sempre "as passas do Algarve", parece ser obliterado, branqueado, esquecido. É como se o mundo, antes de nós, fosse uma maravilha e o futuro um buraco negro para onde, sem hipóteses de fuga, avançamos.

Quem viu o filme de Woody Allen, Meia Noite em Paris, recordar-se-á da vontade de muitas das personagens em regressar à geração anterior, com a ilusão de que o mundo era muito melhor do que é no tempo em que vivem. O próprio realizador comentou, numa entrevista, com o sarcasmo que lhe é conhecido: "prefiro viver num mundo cheio de problemas mas com antibióticos!". A ideia de que "antes é que era bom" é errada. "Antes" poderia ser bom para alguns, mas era muito mau para a larga maioria. O presente – então em Portugal, isto assume proporções quase gigantescas – é muito melhor do que o passado, pelo que é previsível (é certo!) que o futuro será melhor do que o presente. Só que, em termos históricos, o futuro não se escreve num dia ou num ano, e também não apenas numa dimensão económica, mas sim em décadas e em diversas perspectivas: a económica e financeira, com certeza, mas a social, ética, cultural, etc. As gerações dos nossos pais e avós passaram tempos terríveis: II Grande Guerra, Guerra Colonial, ditadura fascista… tanta coisa de que, felizmente por um lado, infelizmente pelo outro, os adolescentes não conhecem e os adultos já esqueceram. Quem tinha 18 anos no 25 de Abril terá agora 55… 

Que solução? 
É bom que o nosso discurso mude, deixando vitimizações de lado e a conversa fiada da infelicidade, da perseguição pelos outros e pelo Estado, e do quão coitadinhos somos. É importante, na minha opinião, que os nossos filhos saibam várias coisas e que isso seja acentuado:

1. Que ser adulto é ter uma fase da vida de enorme liberdade, e que essa liberdade será tanto maior quanto a pessoa decidir, desde cedo, ser senhor do seu percurso de vida e entender os graus de liberdade que tem relativamente a ele, através das escolhas correctas e da reflexão e ponderação sobre essas escolhas – quem pensar que está tudo predestinado ou que o que decidir hoje não tem impacte no amanhã estará, sim, a cavar um futuro perigoso. As teorias do carpe diem, ou do "viver cada dia como se fosse o último", por muito gentis e engraçadas que sejam, esquecem-se de um pequeno pormenor: é que tudo seria correcto se morrêssemos amanhã mas se não morrermos – o que será certamente o caso – o nosso futuro será mais difícil e pior se hoje não pusermos as pedras adequadas na calçada do nosso percurso de vida.

Ter a cabeça nas nuvens mas os pés bem assentes na terra parece-me uma solução engenhosa, criativa e eficaz…

2. Que as crianças e adolescentes têm uma vida como nunca tiveram em bens, liberdade, educação, opções de produtos e bens, conhecimento científico, acesso à informação e ao conhecimento, equipamentos, sociedade legislada e organizada, enfim, uma vida que as gerações anteriores ambicionariam ter e que construíram – não foi apenas a crise que lhes legaram, mas sobretudo uma sociedade de tolerância, democracia e liberdade.

Nunca, como hoje, se viveram tempos de tanto respeito pelos direitos humanos, de abundância e tanta qualidade de vida. Esta afirmação é fundamentada em factos, não é apenas opinativa.

3. Que o "quero tudo, já!" que reflecte o regresso à fase da omnipotência narcísica dos 15-18 meses de idade, e que muitas das crianças e adolescentes veem consagrado no seu dia-a-dia com pais que lhes dão tudo sem esforço e sem conquista, que consagram os seus desejos ao mínimo "piu", não esclarecendo que as expectativas não podem ser iguais à realidade e que é através do trabalho, da sabedoria, e da vida, no seu percurso, que se irão obter mais e mais coisas, tem de acabar porque não é exequível nem justo. O "quero tudo, já!" que se viu concretizado nos cartõezinhos mágicos que bancos e lojas davam às pessoas (como se fosse possível ter crédito ilimitado sem que alguém viesse depois pedir contas e juros, ou até mesmo como se fosse lógico, ético e moral contrair dívidas para gozo efémero e imediato sem que, no futuro, isso viesse a cair sobre quem as contraiu), tem de acabar com o "não!" que dizemos aos nossos filhos de ano e meio ou dois anos, quando nos pedem mundos e fundos.

O "não" é estruturante, desde que dito com afecto e firmeza, coerência e consistência. Seria aliciante não haver código da estrada, mas o caos no trânsito que se seguiria seria um preço demasiado caro a pagar, para lá da ineficácia e de não chegarmos a lado nenhum por termos tudo entupido à nossa frente. Com o percurso de vida é igual, embora as margens do rio não devam ser nem tão estreitas que o rio entra em torrente, nem tão largas que o rio alaga tudo e não progride.

4. Que a vida é difícil, em alguns períodos mais, noutros menos, que há épocas de vacas gordas e outras de vacas magras, mas que a sábia gestão de bens, expectativas, desejos e trabalho, numa óptica estratégica e táctica, pode conseguir airbags que evitam males maiores e permitem uma boa navegação ao longo da vida.

Sem estar com um discurso do "Ó tempo volta para trás", é bom relembrar a história dos pais, da família, da comunidade, do país… porque a memória é curta, e muito mais quando houve uma revolução paradigmática em termos de informação e comunicação.

5. Que ser adolescente em tempos de crise é normal, porque a crise é inerente a todas as fases da vida, incluindo a adolescência e talvez até mais pela velocidade de crescimento, desenvolvimento, autonomia, identidade, projectos, afectos e outras coisas que tal e que cada um poderá dar a volta à crise se mantiver a lucidez, tentar a excelência de si próprio, esforçar-se por conseguir ultrapassar-se e assumir o aperfeiçoamento como objectivo de vida.

Os filhos não são nem podem ser a segunda edição do nosso livro, mesmo que com algumas correcções e emendas, e uma nova capa. Os filhos são o livro deles, com algumas dicas da nossa parte mas escrito por eles. Adolescer em tempos de crise é quase um pleonasmo. Mas, em todas as fases da vida, vivemos em crise, entrecortada por períodos de acalmia, de reflexão e também de fruição do que se foi estruturando e organizando, mas se a seguir à tempestade vem a bonança, como diria La Palice, a seguir à bonança virá necessariamente uma tempestade.

Continuemos a apoiar os nossos filhos, no seu processo de crescimento, segundo os princípios e valores que são os nossos, mas com uma grande capacidade de ouvir, escutar, dialogar, negociar e respeitar. Reciprocamente.

E mostremos – para nosso bem, igualmente –, que ser adulto é bom. Que o carro que vai sair do outro lado da máquina de lavar, depois da ameaça daquelas enormes escovas azuis que avançam à velocidade quase da luz, com barulhos e tremores, depois da nuvem branca de espuma que não nos deixa ver nada e da outra grande máquina de ar quente que avança em direcção a nós, o carro sairá do outro lado limpo e brilhante a cheirar bem e com aspecto novo, mesmo que subsistam alguns riscos e "cicatrizes" de factos passados. Mas, claro, como em tudo na vida, este sucesso dependerá da qualidade e afinação da máquina, da competência do operador e da vontade e força de vontade do próprio.

Há escolhos, dificuldades, obstáculos e crises. Mas há nós próprios, e é isso que temos de dizer aos adolescentes, caso contrário afirmar-nos-emos enquanto adultos como fracassados e falhados, o que, convenhamos, não será bom, nem para a nossa imagem, nem para o modelo que devemos ser (e que somos) para eles. 

O autor é médico e professor de Pediatria